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Da cana-de-açúcar ao Bitcoin: como o Brasil transforma seu excedente de energia limpa em mineração

markets2026-08-27 · 4 min read · 0 reads

Enquanto o mundo debate o consumo de energia das criptomoedas, o Brasil encontra uma solução engenhosa. Da parceria entre Tether e Adecoagro movida a bagaço de cana até os planos da Engie com energia solar, o país usa a mineração de Bitcoin como válvula de escape para sua energia renovável excedente

A mineração de Bitcoin costuma ser criticada pelo seu enorme apetite energético, frequentemente associada a um impacto ambiental negativo. No entanto, o Brasil está escrevendo um capítulo diferente nessa história, transformando aquilo que parecia um problema em uma oportunidade única. O segredo está em aproveitar a abundância de energia limpa que o país produz e que muitas vezes acaba desperdiçada.

Um setor em franca expansão

Os números demonstram que a mineração de criptomoedas está crescendo de forma acelerada em território brasileiro. O poder de processamento dedicado a essa atividade no país, conhecido tecnicamente como hashrate, disparou impressionantes 133 por cento em apenas um ano, alcançando a marca de 3,5 exahashes por segundo, o que coloca o Brasil no mapa global do setor.

Esse avanço não é fruto do acaso, mas sim de mudanças estruturais importantes na economia do país. A abertura do mercado de energia para grandes consumidores, ocorrida em 2024, criou um ambiente propício para investimentos de longo prazo em infraestrutura. Isso indica que não se trata de uma febre passageira, mas de uma aposta séria e duradoura no futuro.

Da cana-de-açúcar ao Bitcoin: como o Brasil transforma seu excedente de energia limpa em mineração

Para incentivar ainda mais essa indústria nascente, o governo brasileiro tomou medidas concretas de estímulo. Uma das mais significativas foi a redução a zero do imposto de importação sobre as máquinas de mineração de Bitcoin. Essa política torna muito mais barato e atraente instalar operações no país, atraindo empresas e capital estrangeiro para o setor.

O poder do bagaço de cana

Talvez o exemplo mais criativo dessa nova era seja a parceria firmada entre a gigante de stablecoins Tether e a empresa do agronegócio Adecoagro. As duas companhias assinaram um acordo em setembro de 2025 para explorar a mineração de Bitcoin utilizando uma fonte de energia surpreendente e genuinamente brasileira, o bagaço da cana-de-açúcar.

O projeto-piloto dessa iniciativa estava previsto para entrar em operação já no início de julho de 2026. A operação começa com uma capacidade inicial de 10 megawatts e conta com cerca de 1.280 máquinas de mineração, todas alimentadas inteiramente por energia de biomassa proveniente do processamento da cana, um resíduo que antes teria pouca utilidade.

A escolha da Adecoagro como parceira não foi por acaso, dada a sua enorme capacidade produtiva no ramo de energias limpas. A empresa possui mais de 230 megawatts de capacidade de geração elétrica a partir de fontes renováveis espalhadas pela América do Sul, o que a torna uma aliada ideal para esse tipo de empreendimento sustentável e inovador.

A energia solar entra em cena

A cana-de-açúcar, porém, não é a única protagonista dessa transformação energética. A gigante francesa de energia Engie revelou estar considerando a instalação de máquinas de mineração de Bitcoin em sua usina Assú Sol, localizada no nordeste brasileiro. Trata-se, inclusive, da maior instalação solar da empresa em todo o mundo, com impressionantes 895 megawatts.

O objetivo por trás dessa possível iniciativa é bastante pragmático e inteligente do ponto de vista financeiro. Muitas vezes, as usinas solares geram mais eletricidade do que a rede consegue absorver em determinados momentos, e essa energia excedente simplesmente se perde. A mineração surge como uma forma de monetizar essa eletricidade que de outra forma seria desperdiçada.

É justamente aqui que reside a genialidade do modelo brasileiro. A mineração de Bitcoin funciona como uma verdadeira válvula de escape para a energia renovável ociosa. Em vez de desperdiçar o excedente, as máquinas o consomem de forma flexível, ajudando inclusive a equilibrar a rede elétrica e a melhorar a rentabilidade dos grandes projetos de geração limpa.

Um modelo para o futuro

Essa abordagem coloca o Brasil em uma posição estratégica invejável no cenário global das criptomoedas. Ao unir sua vocação natural para as energias renováveis, seja hidrelétrica, solar ou de biomassa, com a demanda tecnológica da mineração, o país consegue responder de forma elegante a uma das principais críticas feitas ao universo do Bitcoin, a questão ambiental.

Vale ressaltar que o interesse nesse modelo também se conecta a discussões mais amplas no país sobre o papel do Bitcoin. Algumas propostas legislativas em debate no Congresso chegam a incentivar operações de mineração apoiadas pelo Estado, o que permitiria ao Brasil adquirir a criptomoeda por meio da produção própria, e não apenas através da compra no mercado.

No fim das contas, o que se desenha é um casamento perfeito entre tecnologia e sustentabilidade. O Brasil demonstra que é possível abraçar a inovação das criptomoedas sem abrir mão de suas credenciais ambientais, aproveitando seus recursos naturais de maneira inteligente. Se o modelo se consolidar, o país pode se tornar uma referência mundial em mineração verde.

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