Bruno CarvalhoVIEW PROFILE →
O sonho do 'Pix global': como fintechs brasileiras querem exportar a revolução dos pagamentos com stablecoins
Depois de conquistar o Brasil com o Pix, empresas como a NoxPay e a LiberPay miram um objetivo ainda mais ambicioso: usar as stablecoins para criar uma infraestrutura de pagamentos instantâneos que funcione entre países, um verdadeiro 'Pix global'.
O Pix transformou de forma radical a maneira como o brasileiro lida com o dinheiro, tornando as transferências instantâneas e gratuitas parte do cotidiano. Agora, um grupo de fintechs nacionais quer levar essa mesma lógica para o mundo inteiro, e o Brasil quer estar no centro dessa transformação, apostando em uma tecnologia surpreendente.
A ambição do 'Pix global'
No coração dessa nova corrida está a ideia de replicar o sucesso do Pix em escala internacional. A fintech brasileira NoxPay, por exemplo, tem um objetivo declarado e audacioso: transformar as stablecoins naquilo que ela mesma chama de um verdadeiro 'Pix global', capaz de cruzar fronteiras sem os entraves atuais.
A proposta é que essas moedas digitais se tornem a moeda de trabalho para negócios que operam em vários países, permitindo que empresas vendam, contratem e paguem seus fornecedores no exterior com a mesma facilidade de uma transferência local. É uma tentativa de eliminar a burocracia e os altos custos dos pagamentos internacionais tradicionais.

A tecnologia por trás da ideia
Para tornar essa visão realidade, as empresas apostam em soluções práticas e acessíveis. A LiberPay, fundada em 2025, desenvolveu uma plataforma que permite realizar pagamentos por meio de QR Code e links, oferecendo suporte a stablecoins amplamente conhecidas, como o USDC e o USDT, atreladas ao dólar americano.
O uso do QR Code, ferramenta já tão familiar aos brasileiros graças ao próprio Pix, é estratégico. Ele reduz a barreira de entrada e torna a experiência de pagar com criptomoedas quase idêntica à de qualquer transação digital cotidiana, aproximando uma tecnologia complexa do usuário comum e das pequenas empresas.
Um terreno fértil chamado Brasil
Não é por acaso que essas inovações florescem justamente em solo brasileiro, pois o país oferece um ambiente excepcionalmente favorável. Segundo o Banco Central, mais de 170 milhões de brasileiros já utilizaram o Pix, que movimentou mais de 7 bilhões de transações apenas no mês de maio de 2026, um número que revela uma população já habituada ao digital.
Além dessa familiaridade com pagamentos instantâneos, os brasileiros demonstram um apetite enorme por moedas digitais estáveis. As stablecoins já representam cerca de 80 por cento de todo o volume declarado de criptoativos no Brasil, com aproximadamente 1,13 trilhão de reais em operações registradas entre agosto de 2019 e dezembro de 2025.
O debate ganha o palco
Toda essa efervescência tem um ponto de encontro importante no calendário do setor. O evento Blockchain.RIO 2026, realizado nos dias 12 e 13 de agosto no ExpoRio, no Rio de Janeiro, reuniu discussões sobre regulação, tokenização, stablecoins e, claro, o futuro dos pagamentos globais, consolidando a cidade como um polo de inovação.
Foi justamente nesse ambiente que empresas como a LiberPay apresentaram suas infraestruturas para pagamentos com criptomoedas e stablecoins. Encontros como esse são cruciais para conectar empreendedores, investidores e reguladores, acelerando o amadurecimento de um mercado que ainda está desenhando suas próprias regras.
As regras do jogo
E é sobre essas regras que repousa boa parte do futuro dessas iniciativas, já que a solidez de um sistema financeiro depende da clareza regulatória. No Brasil, as Resoluções 519, 520 e 521 do Banco Central entraram em vigor em fevereiro de 2026, criando um regime de autorização específico para as chamadas prestadoras de serviços de ativos virtuais.
Esse arcabouço legal, ao trazer mais segurança e supervisão para o setor, tende a fortalecer justamente as empresas sérias que buscam construir soluções duradouras. Se a aposta das fintechs brasileiras der certo, o país pode não apenas ter revolucionado seus próprios pagamentos, mas também exportar para o mundo um novo modelo de mover dinheiro através das fronteiras.






